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Zona de interesse: reflexões sobre a banalidade do mal

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O filme Zona de Interesse, dirigido por Jonathan Glazer, nos ajuda a examinar não apenas o Holocausto, mas também as implicações mais amplas da banalidade do mal em contextos contemporâneos. Embora o filme se passe durante a Segunda Guerra Mundial, a angústia, a irreflexão e a indiferença presentes nos personagens ressoam de maneira perturbadora em cenários atuais.

Ao nos aproximarmos da vida aparentemente normal de Rudolf Höss e sua família nos arredores de Auschwitz, somos confrontados com a presença onipresente da violência e da barbárie, que não estão explícitas, mas estão presentes. Há uma sombra, um som, uma angústia que percorre todo o filme; não entendemos o que é, mas sabemos do que se trata. E continuamos inertes.

O filme nos lembra que genocídio, como bem pontuou Vladimir Safatle, não “é algo ligado a algum número absoluto de mortes, mas sim a uma forma específica de política de apagamento dos corpos, de desumanização da dor de populações, de silenciamento do luto público que retiram populações de sua humanidade”. Ao desumanizar uma população, a violência perpetua-se pelo silêncio, pela continuidade das vidas cotidianas, pela manutenção das atividades rotineiras. A indiferença com o outro é uma das faces de um genocídio, para além da ocupação de um território, de assentamentos ilegais, de demolições de casas, da violência e das restrições à liberdade de movimento.

Graves violações de direitos humanos pressupõem o que Hanna Arendt cunhou de banalidade do mal ao analisar o julgamento de Eichmann. Ao acompanhar o processo, ela percebeu que ele não era um vilão tradicional dos clássicos, movido por motivações maliciosas ou demoníacas, mas sim um homem comum, caracterizado pela falta de reflexão em suas ações.

Mais assustador ainda é pensar que o extermínio de povos inteiros não é sem precedentes, como já demonstrado por Arendt. Desde a antiguidade, passando pelos séculos de colonização, chegando aos conflitos atuais, diversos foram os atos contra populações específicas, não necessariamente por questões étnico-raciais. Hitler, por exemplo, iniciou os assassinatos em massa sobre o que denominava “doentes incuráveis” com “morte misericordiosa”, e pretendia ampliar aos alemães “geneticamente defeituosos” (os doentes do coração e do pulmão).

Grandes violações de direitos humanos, incluindo os perpetrados em genocídios, podem e foram ao longo da história dirigidos a diversos grupos. O princípio da seleção depende, em grande medida, de fatores circunstanciais, amparados em relações históricas, econômicas e políticas determinadas. Não por outro motivo, Arendt já alertava que possivelmente em um futuro não muito distante os homens poderiam tentar exterminar todos aqueles “cujo quociente de inteligência esteja abaixo de determinado nível”.

Genocídios não estão restritos a determinada população ou relação histórica específica, nem mesmo necessitam exterminar toda a população para se configurarem. São crimes sempre imanentes, especialmente em uma modernidade que se estruturou pela lógica nós versus outros da colonização. A colonização foi o processo estruturante da modernidade e do que nós somos hoje. Independente de quais grupos podem ser afetados, ainda hoje, por processos de extermínio, uma coisa se mantém presente em todos os processos passados e presentes: a indiferença, a banalidade das atrocidades.