Hermenêutica e a compreensão da realidade histórica

Para autores como Dilthey (1833–1911), a compreensão da realidade histórica exige reconhecer a relação entre o todo e as partes, na qual a experiência humana se torna o ponto de partida para a interpretação da história. Assim como uma frase (parte) só faz sentido dentro de um contexto (todo), para compreender a realidade histórica é necessário organizar, relacionar e compreender os fatos individuais, as ações e as expressões da vida, e vice-versa. Essa relação entre o todo e as partes, e das partes com o todo, trabalhada no chamado círculo hermenêutico, é aplicada à articulação entre eventos individuais e o contexto histórico mais amplo. Assim, a realidade histórica passa a ser vista como um texto que necessita de compreensão.
O círculo hermenêutico indica que não se consegue compreender completamente um texto sem entender suas partes (palavras e frases), mas também não se consegue compreender essas partes sem ter uma noção do todo. Para Schleiermacher, compreender é uma espécie de “arte”, que envolve tanto aspectos objetivos/comparativos (como a linguagem) quanto subjetivos/divinatórios (como a intenção do autor). Isso significa que, além de entender o que está escrito, é importante tentar compreender o que o autor quis dizer. Para isso, é necessário um esforço de reconstrução e aproximação: imaginar-se no lugar do autor e reconstruir seu pensamento, buscando diminuir o que é estranho entre o autor e o intérprete.
Ressalta-se que Schleiermacher desenvolveu a concepção de hermenêutica enquanto técnica universal de compreensão, com regras e normas por meio das quais seria possível interpretar qualquer texto ou comunicação linguística. A interpretação consistiria na relação entre o geral e o particular por meio dos métodos complementares divinatório e comparativo. Pelo método divinatório, busca-se imaginar, intuir, apreender o individual, o pessoal, o genial. Trata-se de se colocar no lugar do outro para compreender seu percurso de criação no aspecto psicológico. O método comparativo, por sua vez, parte do genérico para identificar o particular, seja da linguagem em que está inserido, do contexto ou por comparação com as próprias obras do mesmo autor.
A historiografia utiliza essa lógica ao fazer a mediação entre o indivíduo e a história. O sentido de um texto ou de um acontecimento não está apenas nas palavras ou na intenção de quem o produziu, mas também nas condições históricas que permitiram sua existência. A primeira condição de possibilidade da ciência da história é o próprio ser humano ser um ser histórico. Quem investiga a história é aquele que a faz. O conhecimento da ciência histórica está amparado nas recordações, expectativas e sofrimentos da experiência. De acordo com Gadamer (2015, p. 302): “o nexo vital, tal como se oferece ao indivíduo (e como é revivido e compreendido por outros indivíduos no conhecimento biográfico), estabelece-se graças ao caráter significativo de determinadas vivências. A partir delas, como de um centro organizador, constitui-se a unidade do percurso de uma vida, da mesma forma que uma melodia, cuja configuração significativa não se dá a partir da mera sucessão de tons passageiros, mas a partir dos motivos musicais que determinam a unidade de sua forma”.
Em outras palavras, algumas experiências, que ganham sentido, funcionam como centros organizadores da história individual e coletiva. Essas experiências são aquelas que ganham significado, como momentos importantes, decisões, encontros, perdas e conquistas. São elas que conectam os diferentes acontecimentos e fazem com que a vida pareça uma história com unidade. Compreende-se a vida por meio de momentos que estruturam a história de cada indivíduo ou de outros.
A história deve ser compreendida a partir de unidades que não existem isoladamente, mas que estão conectadas entre si e são influenciadas por diferentes forças sociais, culturais e históricas. Isso significa que os acontecimentos, as práticas e as instituições só fazem sentido quando considerados dentro de uma rede mais ampla de relações. O ser humano, enquanto ser histórico, não apenas vive na história, mas é constituído por essas experiências históricas que moldam sua forma de pensar, sentir e agir.
Nesse contexto, a vida não se apresenta de forma direta e transparente, mas é expressa por meio de diferentes formas simbólicas, isto é, por meio de formas simbólicas de expressão da vida. A religião, a poesia e o direito, por exemplo, não são esferas separadas, mas modos distintos de expressar a mesma vida humana. Cada uma delas traduz a experiência humana de maneira própria: a religião por meio de dogmas, a poesia por meio de metáforas e o direito por meio de conceitos e normas (Dilthey, 2025b, p. 24). Diante disso, compreender essas diferentes formas de expressão da vida exige um tipo específico de abordagem.
Nesse sentido, Dilthey também foi responsável por diferenciar as ciências naturais das ciências do espírito. As ciências naturais buscam explicações causais e gerais, ou seja, procuram leis que se repetem. Já as ciências do espírito, como é o caso da história, da filosofia e da literatura, lidam com experiências humanas, que são complexas, singulares e compreensivas.
Para Dilthey (2025, p. 43–44):
As ciências que têm como objeto a realidade histórico-social buscam com mais rigor do que antes sua conexão mútua e seu fundamento. Impulsionam nessa direção, juntamente com as causas que obedecem ao estado de cada ciência positiva particular, poderosas forças provenientes das convulsões experimentadas pela sociedade desde a Revolução Francesa. O conhecimento das forças que regem a sociedade, das causas que produziram suas convulsões, de seus recursos para um progresso saudável, tudo isso se tornou uma questão vital para nossa civilização. Por isso cresce a importância das ciências sociais frente às ciências da natureza; com as grandes dimensões de nossa vida moderna, verifica-se uma mudança no interesse científico, semelhante à que ocorreu nas pequenas cidades gregas nos séculos V e IV antes de Cristo, quando as mudanças operadas nessa sociedade de estados trouxeram as teorias negativas do direito natural dos sofistas e, diante delas, os trabalhos da escola socrática sobre o estado.
Ao pensar nas ciências do espírito ou nas ciências humanas, Dilthey questiona o conceito de causalidade, já que, nesses casos, não se trata de necessidade. As mudanças no âmbito das ciências humanas estariam mais próximas das motivações e dos desejos do que da ideia de necessidade. Partindo dessa compreensão, ele se propôs a pensar quais métodos permitiriam a leitura objetiva de estruturas simbólicas, como práticas, normas e valores sociais.
A abordagem hermenêutica contestava a perspectiva positivista, que via na interpretação apenas uma reconstrução imaginativa das intenções dos atores por meio de métodos absolutos de verificação. A hermenêutica, para Dilthey, pressupõe uma leitura do contexto social ao qual a ação, o texto e a crença pertencem, compreendendo-os a partir da ótica de outras ações e crenças historicamente construídas (Scocuglia, 2022, p. 252). Compreender, nas ciências do espírito, como havia sido proposto por Schleiermacher, envolve interpretar não apenas textos e discursos, mas também outras formas de expressão da vida humana, como gestos, obras de arte e instituições. O objeto central da compreensão não é a busca pela verdade, pela veracidade do que está sendo dito, mas a individualidade expressa.
Em situações do dia a dia, muitas vezes se entende o que o outro diz de forma imediata, porque se compartilha uma mesma língua e cultura. No entanto, há casos mais complexos em que é necessário ir além dessa compreensão básica e considerar o contexto mais amplo. Quando isso acontece, torna-se importante conhecer melhor a vida e a perspectiva de quem produziu aquele discurso e o contexto histórico em que está inserido.
Dilthey também afirmava que não é possível separar completamente os conceitos da vida real. O significado de um conceito é expressão da vida, que é compreendida como unidades de sentido duradouras. As pessoas interpretam o mundo a partir de suas experiências e contextos históricos, e não de uma razão abstrata e universal. As ações têm sentido porque estão ligadas à vida interior, mas também ao contexto em que se vive. Por isso, compreender a história é, de certa forma, compreender a si mesmo. A análise da vida, e não a análise de estruturas abstratas, deve ser o ponto de partida da investigação filosófica.
Isso quer dizer que só é possível compreender os traços historicamente dados a partir da interioridade da vida psíquica. De acordo com Dilthey (2025a, p. 50): “todos os produtos humanos brotam da vida psíquica e de suas relações com o mundo exterior. Como a ciência busca regularidades em toda parte, o estudo dos produtos espirituais também deve partir das regularidades na vida psíquica”. A mente, a sociedade e os processos históricos estão mergulhados em um domínio psíquico geral.
A hermenêutica, nesse sentido, é um processo de autocompreensão. Mas isso não significa apenas olhar para dentro de si, no âmbito interno, psicológico. Trata-se de entender como se está inserido em um tempo e em uma cultura. Trata-se de refletir sobre o presente como algo histórico, relativo e em constante transformação. A história pode ser vista, então, como um processo contínuo de interações entre indivíduos, em que cada pessoa se conecta com o todo. Os indivíduos se conectam em unidades, como uma geração específica ou uma nação, que representam uma realidade espiritual de seu tempo.
De acordo com Gadamer (2015, p. 312), em Dilthey, seria possível pensar o “conhecimento de nexos históricos cada vez mais amplos e estendê-lo até um conhecimento histórico universal, do mesmo modo que uma palavra só pode ser compreendida plenamente a partir da frase inteira, e esta somente a partir do contexto do texto inteiro e até da totalidade da literatura transmitida”.
Ressalta-se que os homens se comunicam uns com os outros, e as experiências individuais podem despertar sentimentos e levar outros à ação. O padrão que até então era individual pode se tornar um padrão de vida daquela sociedade naquele período histórico. Assim, o ser humano se conhece por meio da história. Só é possível compreender o que se sente e se pensa ao observar como isso se expressa no mundo, nas práticas culturais e nas relações sociais. A cultura é um tecido de nexos finais. A linguagem, o direito, a poesia e a filosofia possuem uma legalidade interna que condiciona sua estrutura e determina o seu desenvolvimento (Dilthey, 2025, p. 18).
Por fim, Dilthey destaca que a experiência humana não é feita apenas de razão. Ela envolve sentimentos, desejos, pensamentos e vivências ao longo do tempo. Toda experiência, para ele, é um fato da consciência. O objetivo das ciências do espírito é captar o singular na realidade histórico-social, o espírito do tempo presente nas manifestações culturais.
Apesar de a experiência ser vista como um fato da consciência, ela é governada por certas condições da própria consciência, isto é, pressuposições. As estruturas objetivas do mundo são construídas por processos históricos que testam essas pressuposições da consciência, as formas prévias de entender o mundo. Caberia à filosofia refletir sobre essas pressuposições em funcionamento na construção do conhecimento em cada período.
Referências
DILTHEY, Wilhelm. A Essência da Filosofia (Portuguese Edition) Fi.E Editorial. Edição do Kindle, 2025a.
DILTHEY, Wilhelm. Introdução às Ciências do Espírito (Portuguese Edition).Edição do Kindle, 2025b.
DILTHEY, Wilhelm. O Surgimento da Hermenêutica (1900). Trad. E. Gross. Numen: Revista de Estudos e Pesquisa da Religião, Juiz de For a, v. 2, n.1. p. 11–32. Jan.jun, 1999.
GADAMER, Hans. Verdade e Método. 15 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.
MAZOTTI, Marcelo. As escolas hermenêuticas e os métodos de interpretação da lei. São Paulo: Minha Editora, 2010.
SCOCUGLIA, Jovanka Barachuhey Cavalcanti. A hermenêutica de Wiltheim Dilthey e a reflexão epistemológica nas ciência humanas contemporâneas. Sociedade e Estado, Brasília, v. 17, n. 2, p. 249–281, jul.dez. 2022.
Principais tópicos para reflexão:
- Círculo hermenêutico e história: O círculo hermenêutico, aplicado à história, evidencia a relação entre o todo e as partes, onde a história pode ser compreendida como um texto que precisa ser interpretado.
- Experiência: A experiência deve ser o ponto de partida para o conhecimento e para reflexão. Além disso, ela estrutura a compreensão histórica. As experiências individuais refletem à consciência, mas esta está marcada por pressuposições, que são testadas na prática e devem ser objeto da filosofia.
- Compreensão psicológica e hermenêutica: A compreensão psicológica busca reconstruir a interioridade do indivíduo, enquanto a compreensão hermenêutica amplia esse processo ao situar o sentido das ações e dos textos no contexto histórico e cultural em que estão inseridos.