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Entre a alteridade e a vida em comum: uma reflexão sobre o voto

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No período eleitoral, sempre vejo circular mensagens e textos que propõem pensar o voto a partir da realidade das pessoas mais vulnerabilizadas, especialmente daquelas que mais dependem das políticas públicas para garantir direitos e condições dignas de vida. A ideia central é que, mesmo quando determinadas escolhas políticas não produzem efeitos diretos ou imediatos sobre nossa própria vida, precisamos considerar as consequências que podem produzir sobre pessoas que vivem em condições muito diferentes das nossas. O voto aparece, assim, como um exercício de alteridade. Diante de uma realidade que não é necessariamente a nossa, somos convidados a olhar para aqueles que podem ser mais diretamente afetados pelas escolhas políticas e considerar sua situação no momento de decidir.

Concordo com essa perspectiva e considero a alteridade fundamental para a vida em comunidade. Mas penso que é preciso acrescentar outra dimensão a essa reflexão. O ambiente em que cresci não foi indiferente à minha própria trajetória. Somos animais sociais e políticos e, por isso, somos afetados, direta e indiretamente, pelas políticas, pelas instituições e pelas relações que nos cercam.

A forma como pensamos, convivemos e desenvolvemos nossas capacidades também é condicionada pelas relações sociais e pelas condições concretas em que vivemos. Nossa autonomia, portanto, não significa independência absoluta. Dependemos de outras pessoas e de condições sociais que tornam possível desenvolver nossas habilidades e realizar nossos projetos de vida.

Isso significa que aquilo que acontece com outras pessoas não está necessariamente distante da nossa própria realidade. Quanto mais pessoas têm acesso à vacinação, à educação, ao trabalho digno, à renda, ao lazer e a condições dignas de vida, maiores também são as possibilidades de participação e desenvolvimento de toda a sociedade.

Eu também me beneficio de viver em um país com educação de qualidade, instituições democráticas, trabalho digno, serviços públicos funcionando e pessoas com diferentes habilidades e oportunidades para desenvolver seus projetos de vida. Minha própria trajetória não foi construída apenas a partir das minhas escolhas individuais. Existem inúmeras relações, instituições, oportunidades e condições sociais que possibilitaram que eu chegasse a determinados espaços e tivesse acesso a determinadas experiências.

Não somos seres isolados em nossos privilégios. Aquilo que temos e os espaços que ocupamos também são resultado de uma rede de relações da qual fazemos parte. Nossas condições de vida são construídas nas relações que estabelecemos com outras pessoas e nas instituições que compartilhamos.

Por isso, talvez seja importante pensar a vida política não apenas a partir da pergunta sobre aquilo que diretamente ganhamos ou perdemos, mas também a partir da sociedade que construímos juntos e das condições que tornam possível a autonomia de todos e de cada pessoa.

Eu quero viver em uma sociedade que melhore as condições de vida de todas as pessoas, porque acredito que uma sociedade mais justa é melhor para todos. Não porque a realidade das outras pessoas seja algo distante que precisamos considerar apenas como um exercício de alteridade, mas porque fazemos parte da mesma sociedade e nossas vidas estão, de diferentes maneiras, relacionadas. Aquilo a que tive acesso e aquilo que me foi negado também são resultado das relações sociais, das instituições e das condições que me cercam. Se essas relações produzem oportunidades e direitos para alguns enquanto mantêm outros à margem, não estamos diante de uma sociedade justa. E eu não quero ter benefícios construídos sobre injustiças. A democracia, assim como a justiça, também diz respeito às condições concretas em que escolhemos viver coletivamente.