Violência de gêne
Violência de gênero e mídia
Acredito que um dos problemas das discussões atuais é reduzir a violência de gênero a um problema de homens e mulheres.
Como Segato, acredito que o aumento dessa violência também é resultado de um sistema econômico e político que precariza e coisifica a vida (desemprego, insegurança, desenraizamento). Nesse contexto, o homem não consegue manter o seu “mandato de masculinidade” — que impõe que sejam mais fortes, líderes, etc.- e essa frustração não tem vazão (o mandato não permite que os homens conversem entre si, procurem ajuda, tenham consciência da própria fragilidade e questionem essa ordem).
Quando surgem casos com grande repercussão, pessoas se posicionam contra “o criminoso”, tentando se diferenciar do imoral, anômalo, louco, que cometeu “o crime”.
Ocorre que “o crime” é produto de várias situações menores, que não são crimes, mas agressões diárias.
Crimes são cometidos por pessoas que pertencem a uma sociedade que pratica agressões contra mulheres diariamente.
A maioria dos agressores são pessoas ansiosas para provar que são homens dentro do “mandato de masculinidade” e que tem poder dentro de uma sociedade de exploração e expropriação de si e dos outros.
Por isso, a violência de gênero não se resolve apenas com a lei e com punição, mas atacando as agressões diárias; combatendo o “mandato” ideológico que perpetua essas agressões; e a estrutura que expropria e “coisifica” a vida.
Para tanto, creio que é necessário uma construção pedagógica e cívica que trabalhe as desigualdades de gênero e as frustações econômicas e políticas. Necessário políticas públicas, educação inclusiva, hábitos cívicos de discussão e construção conjunta.
Contudo, muitas vezes, a mídia, e atualmente as redes sociais, ao invés de serem espaços de construção, são meios que repercutem as agressões.
A repetição e a espetacularização da violência normalizam a crueldade e corroboram com as formas de gozo narcisista e consumista atuais, que tem nas coisas a forma primordial de satisfação. O capitalismo hoje depende do espetáculo da crueldade e da naturalização da exploração, expropriação e coisificação da vida e das relações, incluindo as relações entre homens e mulheres.