Schleiermacher, linguagem e historicidade: fundamentos da hermenêutica moderna

Schleiermacher, teólogo e filósofo alemão, nascido em 1768, buscou analisar as condições gerais sob as quais a compreensão ocorre, mais especificamente, formular um conceito geral de compreensão. Ele afastou-se de métodos específicos ou da mera agregação de observações para adentrar em uma teoria universal da hermenêutica.
O pensamento de Schleiermacher é fruto das circunstâncias históricas e políticas do final do século XVIII, na Alemanha, que contribuíram para o surgimento do romantismo. O romantismo, em sua fase inicial, era marcado pelo espírito revolucionário que buscava, no sujeito autônomo, a criação das leis, bem como pela reflexão sobre a atitude humana diante da vida, da estética e da religião. No período, discutiam-se, em especial, sobre as fronteiras entre as áreas do saber e aspectos da racionalidade.
Contudo, enquanto Kant, por exemplo, convidava os sujeitos à reflexão interna, mental, como processo de conhecimento anterior ao mundo externo, Schleiermacher compreendia que a linguagem, que condiciona o conhecimento, é fruto de uma época e de um povo determinados (Haubert e Prellwitz, 2018, p. 40). Conforme afirmado por Mancilla (2022, p. 184), “contra o conceito de sujeito transcendental kantiano como fiador do conhecimento, Schleiermacher defende um sujeito histórico ancorado no mundo real”.
Sendo assim, a hermenêutica não pode ser um ato dedutivo e mecanizado, pois nela a experiência humana do autor se combina com a diferença individual do intérprete. Trata-se de uma arte que combina técnica, lógica, criatividade e subjetividade (Haubert e Prellwitz, 2018, p. 43).
A partir do autor, as ciências humanas foram fortalecidas como compreensivas, em contraste com as ciências naturais, que seriam explicativas, quantitativas e indutivas (Braida, 1995). Ao mesmo tempo em que coloca a apreensão do sentido como essência do método das ciências humanas, questiona os limites das metodologias das ciências naturais. O sujeito, enquanto ser histórico e de linguagem, só compreende a partir da história e da linguagem. A linguagem é condicionante de toda compreensão e de todo conhecimento humano. A parte e o todo são codependentes, o que impossibilita a compreensão por mera indução (Braida, 1995).
Schleiermacher propôs pensar, em conjunto, o universal e o particular, o ideal e o histórico. Mesmo o raciocínio puro, da razão, está circunscrito a um determinado âmbito linguístico, o que limita sua pretensão de universalidade. Todo saber é relativo, pois é limitado pela linguagem. Haveria uma complementaridade entre linguagem e saber: sem linguagem não é possível nenhum saber, e, sem saber, nenhuma linguagem. Alcançar o saber absoluto pressupõe uma linguagem absoluta e universal, o que é impossível. A linguagem é sempre histórica, um infinito indeterminado.
Além da ausência de uma linguagem universal, na prática, não seria possível pensar em uma linguagem ideal e construída. Isso porque toda linguagem está inserida em uma organização esquematizante. Por trás das expressões linguísticas, existe uma base comum, uma intuição comum. As compreensões e os juízos pressupõem conceitos, assim como os conceitos pressupõem juízos e valorações.
Conforme demonstrado por Braida (1995, p. 13), “o universal, para ele, nunca se oferece em si, mas sempre aparece sob uma forma particular; o particular, por sua vez, ao mesmo tempo em que não se deixa subsumir inteiramente pelo universal, contém em si algo que ultrapassa a sua particularidade e manifesta a presença do universal”.
Se o universal é sempre pensado dentro dos limites e das possibilidades da linguagem, a hermenêutica é essencial para a apreensão do pensamento. A hermenêutica, portanto, mantém uma relação de interdependência com a gramática, na medida em que esta constitui a base do entendimento e da comunicação linguística (Braida, 1995).
Percebe-se que Schleiermacher inova ao propor uma análise da compreensão de forma geral, e não de textos específicos, como o jurídico ou o religioso. A arte de compreender, para o autor, está diretamente ligada à arte de falar e à arte de pensar. Trata-se não de uma questão científica, mas filosófica (Braida, 1995). A hermenêutica seria a arte de se colocar na posse de todas as condições do compreender.
A compreensão seria um esforço consciente e metódico, sobre o qual a hermenêutica reflete. Trata-se de uma reflexão metódica sobre as condições práticas da possibilidade de compreensão. A compreensão não é natural: deve ser buscada e desejada. O mal-entendido existe e deve ser superado. Todo discurso carrega aspectos naturalmente incompreensíveis que nunca podem ser completamente eliminados (Mancilla, 2022, p. 184). A experiência da estranheza e a possibilidade do mal-entendido são universais. Nas palavras de Gadamer, “na individualidade do tu, a estranheza já está indissoluvelmente dada em um sentido novo e universal” (2015, p. 247).
Diferentemente da prática natural, a prática metódica exige a apresentação de razões para a compreensão alcançada. É preciso questionar as compreensões imediatas, as pré-compreensões. Com isso, estabelece-se um distanciamento entre o escritor e o leitor, que a hermenêutica busca diminuir, mas que é não é possível superar na sua totalidade (Braida, 1995).
A primeira regra para diminuir esse distanciamento é compreender o domínio linguístico do autor e do público original. Um autor só pode ser compreendido em sua totalidade. Em seguida, é preciso considerar que o sentido da palavra é determinado pelo contexto em que ocorre. Individualmente, cada parte do discurso é indeterminada; sua determinação depende da relação com as demais. Não há sentido em palavras isoladas, mas em sua concatenação. O sentido do conjunto não é mera soma de palavras isoladas. Uma palavra ou frase, isoladamente, possui apenas significados indeterminados e indefinidos. O sentido só se extrai no interior de frases coordenadas, que delimitam o uso dentre os vários possíveis (Braida, 1995).
Contudo, para além da compreensão do todo, o discurso é uma ação individual de um autor. A linguagem, portanto, é manipulada segundo fatores subjetivos. Assim, a interpretação psicológica visa compreender como o autor opera na linguagem. Não é possível saber, a priori, como o autor utiliza a linguagem, nem compreender previamente o uso particular das palavras. O conceito é construído em cada caso, a partir da análise desse uso particular (Braida, 1995).
A linguagem, como discurso, é objeto, instrumento e resultado da hermenêutica. O objetivo é sempre a compreensão do autor, e não apenas do texto enquanto texto. Esse aspecto ficou marcado como o enfoque teórico da hermenêutica romântica, de caráter psicológico (Braida, 1995).
Para Schleiermacher (2015, p. 30), a “hermenêutica é a arte de descobrir os pensamentos de um autor, de um ponto de vista necessário, a partir da sua exposição”. A hermenêutica parte, portanto, da linguagem enquanto discurso para descobrir os pensamentos de quem se expressa. Trata-se de reconstruir, da forma mais completa possível, a evolução da atividade compositora do autor, levando em consideração que a linguagem é histórica e social, isto é, forma-se e se altera ao longo do tempo, além de só existir no processo de comunicação interpessoal. A linguagem nunca é uma estrutura estática. A pessoa é um lugar, um meio onde a linguagem se configura. A palavra circula pelos falantes e pela comunidade.
Para obter a compreensão, é preciso que leitor ou ouvinte e aquele que escreve ou fala tenham algo em comum, algum ponto de contato. De acordo com Schleiermacher, “se o que é para ser compreendido fosse completamente estranho àquele que deve compreender, e não houvesse nada de comum entre ambos, então não haveria ponto de contato para a compreensão” (Schleiermacher, 2015, p. 31). Da mesma forma, se a compreensão fosse natural e instantânea, nada haveria a ser interpretado entre aquele que fala e aquele que ouve.
Ressalta-se que ele não restringe a hermenêutica aos escritos, incorporando também a busca pela compreensão na conversação e no discurso oral. Em todo lugar onde existe algo de estranho na expressão do pensamento, há um problema a ser resolvido pela hermenêutica. Para ele, a hermenêutica ocorre sempre que se busca apreender “pensamentos ou encadeamentos de pensamentos através de palavras”. Além disso, não ocorre apenas no contato com línguas estrangeiras, já que “existe, para um, o estranho nos pensamentos e expressões de um outro” (Schleiermacher, 2015, p. 33). Mesmo quando a língua é familiar, é preciso compreender o encadeamento das operações do falante, isto é, seu modo individual de combinar a linguagem, a sua genialidade.
Essa visão mais ampla da hermenêutica decorre da sua capacidade de enxergar a metodologia hermenêutica para além dos textos clássicos e teológicos. Além disso, ele destaca que a hermenêutica parte tanto da compreensão das regras da linguagem quanto da compreensão do falante, isto é, da “compreensão da expressão viva se manifestando durante o ato de compreender” (Haubert e Prellwitz, 2018, p. 43). Trata-se da compreensão em dois momentos complementares: gramatical e psicológico.
Na compreensão gramatical, ele parte de dois princípios: primeiro, a linguagem comum compartilhada entre autor e público; segundo, a necessidade de analisar o contexto para entender o sentido das palavras. Já a investigação psicológica se dedica a compreender o pensamento do autor, evidenciando sua individualidade. O intérprete deve se colocar na posição do autor, sendo capaz de apreender a linguagem de modo objetivo e compreender subjetivamente sua experiência. O intérprete lida, assim, com a linguagem e com as pessoas. Trata-se de reviver o processo criativo do autor. Não se busca a literalidade das palavras e expressões, mas a individualidade do autor. A partir do texto, deve-se encontrar o caminho de volta da vida do autor. O ato de compreensão é, portanto, uma realização reconstrutiva de uma produção; um ato que evidencia coisas que o próprio autor pode desconhecer.
Para Gadamer (2015, p. 267), Schleiermacher foi pioneiro ao reivindicar a superioridade do intérprete sobre seu objeto. Ele inovou ao dar ênfase à expressão que representa um texto, e não ao texto em si e a busca pela sua verdade absoluta, transcendental.
Além disso, ao combinar gramática e psicologia, ele evidenciou como cada obra é universal e particular ao mesmo tempo. As possibilidades da linguagem são infinitas, já que qualquer indivíduo é inesgotável, podendo estabelecer diversas relações e formas de descrevê-las.
Nas palavras de Mancilla (2022, p. 186), por um lado, na interpretação gramatical, o humano é entendido a partir da linguagem; por outro lado, na interpretação psicológica, a linguagem é entendida a partir do ser humano. Ainda segundo o autor (2022, p. 184–185), trata-se de compreender a própria finitude do sujeito: “o sujeito finito só pode superar sua limitação quando confronta seu ponto de vista com o de outro sujeito igualmente finito. Assim, também é capaz de ir além de suas limitações subjetivas e aproximar-se do conhecimento da verdade, contudo, sem nunca chegar até ela”.
Schleiermacher distinguiu os processos como divinatório e comparativo. Pelo método divinatório, busca-se apreender imediatamente o individual, o pessoal, o genial; já pelo comparativo, parte-se do genérico para identificar o particular. São complementares, pois a comparação já pressupõe uma pré-compreensão imediata.
A apreensão do pensamento do outro, isto é, a compreensão correta do seu discurso, realiza-se por meio da compreensão da linguagem em que ele expressou seu pensamento. “De onde proviria, então, o ponto de partida para o procedimento de comparação, se ele não fosse dado nas tentativas pessoais?” (Schleiermacher, 2015, p. 40).
Tanto a compreensão do discurso, no aspecto gramatical, que parte da totalidade da língua, quanto o aspecto psicológico da interpretação, que busca a compreensão dos processos internos e da produção contínua de ideias, devem ser considerados conjuntamente, complementando-se. Compreender é apreender o comum e o peculiar, comparando e “adivinhando”, por meio da arte, e não de um procedimento mecânico.
Se, de um lado, a linguagem nunca é suficiente em si mesma para fornecer o sentido completo, de outro, o intérprete, utilizando a imaginação a partir da individualidade do autor, pode projetar-se para compreender como se fosse ele. Quanto mais conhece o autor, mais fácil será para o intérprete realizar esse exercício. Adentrar na história e na criatividade do outro não é possível por aspectos meramente técnicos ou científicos, mas pela arte. Artista, no âmbito hermenêutico, é aquele que é capaz de combinar os aspectos gramaticais com os técnico-psicológicos (Mancilla, 2022, p. 191).
Nesse sentido, a arte da compreensão pressupõe princípios éticos: pessoas que compõem uma comunidade de comunicadores e que reconhecem a individualidade e a possibilidade de tomar o ponto de vista do outro. Compreender é entendimento.
Referências
BRAIDA, Celso. Apresentação. In: Schleiemermacher, Friedrich. Arte e técnica da interpretação. 10 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.
GADAMER, Hans. Verdade e Método. 15 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.
HAUBERT, Laura Elizia; PRELLWITZ, Klaus Penna. Apontamentos sobre a hermenêutica de Friedrich Schleiermacher. CONTEXTURA, Belo Horizonte, n° 13, dez. de 2018, p. 39–48.
MANCILLA, Mauricio. Ética dialética da interpretação: a hermenêutica romântica de Friedrich Schleiermacher. Ética dialética da interpretação. Trans/Form/Ação, Marília, v. 45, n. 3, p. 179–200, Jul/Set, 2022.
SCHLEIEMERMACHER, Friedrich. Arte e técnica da interpretação. 10 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.
Principais conceitos
Contexto e projeto filosófico: Schleiermacher (século XVIII) insere-se no contexto do romantismo alemão e das transformações intelectuais do período. Seu objetivo central é formular uma teoria geral da compreensão, superando abordagens fragmentadas. A hermenêutica passa a ser concebida como disciplina universal, voltada à compreensão em sentido amplo, e não restrita a textos específicos.
Linguagem, sujeito e conhecimento: A linguagem é condição de possibilidade do conhecimento, sendo histórica e social. O sujeito é histórico e situado. Todo saber é limitado pela linguagem, o que impede a universalidade absoluta do conhecimento. Há uma relação de complementaridade: não há saber sem linguagem, nem linguagem sem saber.
Hermenêutica como arte da compreensão: A compreensão não é automática nem mecânica, mas processo metódico e consciente. A hermenêutica é uma arte que combina técnica, lógica, criatividade e subjetividade. Exige o questionamento das pré-compreensões e a superação do distanciamento entre autor e intérprete.
Estrutura da interpretação: A interpretação possui duas dimensões complementares: a gramatical, que considera a linguagem comum e o contexto, e a psicológica, que busca compreender a individualidade do autor. O sentido não está em palavras isoladas, mas na relação entre parte e todo. A compreensão é circular e depende dessa interdependência.
Método, intérprete e ética: A interpretação envolve o método divinatório (apreensão do individual) e o comparativo (do geral ao particular), que se complementam. O intérprete deve reconstruir o processo criativo do autor, colocando-se em seu lugar. A hermenêutica possui dimensão ética, baseada na alteridade, na comunicação e na capacidade de assumir o ponto de vista do outro.