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Regras sociais, liberdade e Lanthimos

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“Um relatório para a academia” de Franz Kafka é uma das minhas obras preferidas. Neste conto, conhecemos Pedro Vermelho, um jovem macaco que passa a agir como um ser humano e compartilha sua jornada com cientistas. Desde o início, Pedro Vermelho enfatiza a dificuldade de se comunicar agora como um macaco, já que se passaram quase cinco anos desde que ele abandonou sua natureza primária. Esse distanciamento de suas origens é crucial para sua adaptação à civilização humana. Ao ser capturado, ele aprende os costumes humanos, imita emoções e reconfigura suas memórias para se encaixar nas estruturas sociais, destacando a importância do esquecimento e da aprendizagem seletiva na busca pela liberdade dentro das normas sociais existentes. A memória, diferença entre lembrança e esquecimento, é peça fundamental para se encaixar no mundo humano.

Por outro lado, “Pobres criaturas!”, de Yorgos Lanthimos, nos apresenta Bella Baxter, uma personagem que experimenta um corpo jovem com uma mente neutra. Bella Baxter usa seu próprio corpo como uma ferramenta para explorar afetos, prazeres e a sociedade da forma mais visceral possível. Diferentemente de Pedro Vermelho, Bella Baxter não precisa esquecer, mas sim conhecer, criando a sua singularidade e construindo uma identidade pessoal distinta das normas sociais. Sua visão desafia as perspectivas convencionais, desconcertando e provocando questionamentos naqueles ao seu redor sobre suas próprias identidades. Bella Baxter experimenta para conhecer, ao invés de conhecer para experimentar, além de guardar o que vivencia, sem memórias traumáticas do passado e sem uma interpretação sociológica das experiências: violência, estupro, ciúmes, dominação, gênero.

Enquanto Pedro Vermelho se adapta às estruturas sociais para obter uma forma de liberdade, Bella Baxter busca sua própria identidade de forma anárquica. Sua memória é moldada por suas experiências individuais e sua autoexpressão é livre de normas sociais. Sem uma vida regressa, sem traumas familiares ou abusos, desafia as pobres criaturas que o circundam, imersas em suas crenças limitantes.

Entretanto, nem sempre a ausência de memória é positiva. Viver sem compreender as relações que os cercam pode ser tanto libertário quanto alienante. É necessário compreender as relações de poder, para então decidir como viver, ainda que rompendo as regras sociais. O simples gozo não é sinônimo de liberdade. Ser humano também é viver a dor, os traumas, a indiferença, a angústia, a impotência. É compreender a sua insignificância no mundo.

Como visto em “Dente Canino”, também de Lanthimos, a sociedade exerce uma grande influência sobre nossa consciência e identidade, como evidenciado pela manipulação dos filhos na tentativa de mantê-los isolados do mundo exterior. Assim como a família em “Dente Canino”, várias estruturas sociais e condições materiais limitam nossa liberdade individual. Somos resultado de um emaranhado de códigos disciplinares, memórias traumáticas, conceitos fictícios e regras sociais que influenciam nossa percepção no mundo. O autoritarismo cotidiano, muitas vezes, não está nas portas trancadas, mas na história imaginada além do portão. A privação da liberdade nem sempre é física.

As três obras nos convidam a refletir sobre a busca pela autenticidade e liberdade dentro de uma sociedade disciplinar, normativa, estruturada. Elas nos desafiam a imaginar um mundo mais autêntico, livre das amarras das expectativas sociais e culturais, ao mesmo tempo que nos lembra que somos essencialmente seres sociais, portanto, culturalmente determinados. A felicidade ingênua é limitante, tanto quanto o pessimismo determinista. É no paradoxo entre liberdade e determinação, que buscamos ser e experimentar o mundo.