Paradise Now em quarentena
Rever Paradise Now, dirigido por Hany Abu-Assad, foi uma grata surpresa de quarentena. Talvez porque em isolamento pensar a liberdade ganha proporções ainda maiores, ou em tempos de discursos de ódio pensar a tolerância é urgente. Para quem não conhece, o filme conta a história de dois amigos, Khaled e Said, dois jovens palestinos que são escolhidos como homens-bomba para um ataque na cidade de Tel Aviv, em Israel. É um filme que provocou, e acredito que ainda provoca, sentimentos contraditórios, positivos e negativos. Para muitos, causa incômodo trazer humanidade para aqueles que são retratados sempre de forma estereotipada pela mídia ocidental. Também causa espanto que os conflitos vão além dos religiosos e que as discussões que permeiam a trama se aproximam dos valores ocidentais: vida, dignidade, liberdade e autodeterminação. Como escreveu Toni Morrison, em A Origem dos Outros, “o risco de sentir empatia pelo estrangeiro é a possibilidade de se tornar estrangeiro. Perder o próprio status racializado é perder a própria diferença, valorizada e idealizada”. Assim, reconhecer a humanidade naqueles que são cotidianamente inferiorizados pela mídia e pelos valores ocidentais é perder nosso próprio status de superioridade.
É certo que pouco de nós enfrentamos escolhas tão difíceis quanto as apresentadas no filme. Mas refletir sobre essas escolhas nos permite pensar melhor sobre as relações ao nosso redor e nosso olhar sobre o vizinho, o familiar, o amigo, os concidadãos, próximos e distantes da nossa realidade social e material. A vida em sociedade é cheia de contradições — de justiças e de muitas injustiças. Se repararmos bem, a nossa sociedade está repleta de pessoas que se tornam, pelas possibilidades concretas, ao mesmo tempo, vítimas e assassinos, como Said. Outras estão correndo em círculos, sem possibilidades de saídas reais. Muitas vezes refletimos a partir das nossas convicções — impostas pela criação ou por crenças — e nos esquecemos que as possibilidades de vida (e de resistência) não são algo dado hipoteticamente. Nos termos do filme, esquecemos que a ocupação define a resistência. Se, não existe.