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O Papel da Memória Coletiva na Identidade e na Responsabilidade Social

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A Folha publicou uma reportagem afirmando que a maioria dos brasileiros (63%) deseja que a data que marcou o início de 21 anos de ditadura militar no país, 31 de março de 1964, seja desprezada. Depois de ler o artigo, uma questão permaneceu em minha mente: quais seriam as consequências se, por algum motivo, apagássemos da memória coletiva esse dia?

MacIntyre, em seu livro “Depois da Virtude”, ao discorrer sobre tradição e valores, afirma que só podemos responder à pergunta “O que devo fazer?” se pudermos responder à questão anterior: “De que história ou histórias faço parte?” O que isso significa? Significa que, para entendermos o que devemos fazer no presente, que valores devemos proteger e como devemos agir em determinadas situações, precisamos compreender de onde viemos. É somente ao reconhecermos nossa história que podemos entender nossas responsabilidades e situar nosso lugar na sociedade.

A identidade individual de cada um é moldada pelas histórias passadas de várias outras pessoas, às quais temos o dever de tornar nossas ações compreensíveis, sob pena de nos tornarmos irresponsáveis. Existe uma conexão entre identidade histórica e identidade social, pois as histórias individuais estão sempre entrelaçadas com a história das comunidades que deram origem às nossas identidades. Nas palavras de MacIntyre “o que sou é, fundamentalmente, o que herdei, um passado específico que está presente até certo ponto no meu presente. Descubro que faço parte de uma história e isso é o mesmo que dizer, em geral, quer eu goste ou não, quer eu reconheça ou não, que sou um dos portadores de uma tradição”.

Ao fazer parte de uma tradição, é essencial reconhecermos as dívidas e os legados históricos e culturais que herdamos, bem como as possibilidades futuras que o passado nos ofereceu. O passado molda as possibilidades do presente.

Entender o ser humano como essencialmente um contador de histórias não significa que a questão principal reside no domínio ou na autoria da narrativa, mas sim no que devemos fazer a partir dessa narrativa. Só é possível responder o que fazer se soubermos identificar de que história ou histórias fazemos parte. Toda tradição é portadora de um diálogo crítico sobre quais são os bens e valores mais autênticos, corretos e justos a serem perseguidos em detrimento de outros.

Respondendo à pergunta inicial, creio que desprezar o passado brasileiro não é apenas privar as vítimas de graves violações de direitos humanos e seus familiares do que podemos oferecer: memória e justiça. É também privar os indivíduos de identificarem a história à qual pertencem e, assim, elaborarem um diálogo crítico sobre quais valores devem permear a atualidade. A possibilidade de evitar a repetição das violências e das violações de direitos no presente passa pela necessidade de reconhecermos a história à qual pertencemos e sermos responsáveis pelas ações do presente. O indivíduo sem história é um indivíduo de lugar nenhum, sem responsabilidade pelas dívidas que herdou.

Desprezar a história, portanto, é negar responsabilidades, é privar os sujeitos, que pertencem a uma comunidade, a uma tradição, de serem responsáveis por suas ações no presente.