Ausência de informação ou de debate público?
"São desinformados ou ocupados demais para se informar". "Se tivéssemos boa educação, seríamos um país diferente". "Decisões devem ser fundamentadas em dados e fatos". "Se tivessem informação de qualidade, não estariam apoiando".
Certamente você já ouviu essas frases e é difícil de se opor a elas. Ter acesso à informação, de fato, qualifica decisões. Escolhas “inteligentes”, pautadas em experiências exitosas, tendem a ter melhores resultados.
Entretanto, a forma como essas afirmações são utilizadas podem ser arrogantes e antidemocráticas.
Explico: se preciso averiguar se uma vacina é segura ou não, é certo que devo buscar alguém bem qualificado para análise. Por outro lado, discussões sobre permissão da venda de vacinas por empresas privadas, por exemplo, envolvem também questões éticas: é certo que pessoas com melhores condições econômicas tenham a vacina primeiro?
Se é pressuposto da democracia que discussões éticas sejam tomadas, ou ao menos deliberadas, por todos, essa decisão não compete apenas aos especialistas.
Nas últimas décadas, evidenciamos a transformação tecnocrática do discurso público. A persuasão política foi deixada de lado, em prol de argumentos supostamente técnicos e neutros de pessoas credenciadas.
Para Sandel, essa transformação afastou o interesse de pessoas comuns nas discussões políticas.
Além disso, a ideia arrogante de que os mais “inteligentes” deliberam melhor, é um mito que pode ter contribuído para aproximação de pessoas comuns a líderes autoritários, que não só menosprezam o papel da ciência, como questionam o papel social da academia.
Nós não decidimos nossos pontos de vista apenas com uso de dados científicos. Reconhecimento social e afetos também interferem nas nossas decisões e argumentos.
Pedir dados e leitura de artigos para opinar no debate público, além de ser uma atitude arrogante, despreza as práticas e experiências de grande parcela da população, especialmente quando o acesso a universidade é desigual.
Precisamos ter cuidado para não afastarmos aqueles que queremos persuadir e não cometermos os mesmos erros dos últimos anos.
Pessoas com formação escolar e universitária não é o mesmo que pessoas com bom julgamento e com compreensão em relação à vida da maior parcela da população. Sabedoria prática e virtude cívica (que possibilita deliberar para o bem comum), em grande medida, não é ensinado na maioria das escolas e universidades.
Referências
Bourdieu, Pierre. A distinção. Crítica social do julgamento. Porto Alegre: Zouk, 2007
Young, Michael. The Rise of the Meritocracy (Classics in Organization and Management Series) (pp. 1–2). Taylor and Francis. Edição do Kindle.
Sandel, Michael J.. A tirania do mérito: O que aconteceu com o bem comum? . Civilização Brasileira. Edição do Kindle.