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“Alcarràs”: trabalho, tecnologia, reconhecimento e estima

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Alcarràs”, de Carla Simòn, é um dos filmes mais bonitos que assisti nos últimos meses.

Uma família da zona rural de Catalunha, se vê ameaçada pelos herdeiros do dono da propriedade onde moram e trabalham. Os herdeiros, que não tinham relações com à terra, decidem vender à terra para uma empresa de painéis de energia solar.

A notícia da venda desencadeia uma crise familiar, especialmente entre as gerações que moldaram a identidade cultural daquela comunidade.

Ao invés de adentrar no conflito entre a família e os herdeiros, a alma do filme está nos familiares e seus dramas cotidianos, individuais e coletivos, sendo as plantações a base dos sentimentos, anseios e relações.

Para mim, a sensibilidade da obra está no olhar para relações familiares que se mantém e se criam em torno da relação com à terra. O filme gira em torno da dignidade do trabalhador e da família na construção do bem comum.

O desamparo da venda e a substituição das plantações por tecnologia não são preocupações apenas econômicas, mas também do papel daquela família na sociedade.

O desamparo está em ver que a comunidade no qual a família vivia já não parecia mais precisar das habilidades que eles tinham para oferecer. A privação não é apenas de renda, mas de contribuição para o bem comum.

Qual seria o papel daquela família nessa nova configuração?

O filme me lembrou as discussões de “A tirania do mérito”, de Michael Sandel, que propõe pensar as mudanças no mercado de trabalho e na econômica para além da renda, uma vez que, para ele, a ferida que mais provoca ressentimento é no não reconhecimento das pessoas como produtores, como contribuintes para o bem comum.

Pensar em políticas de emprego e renda é também pensar em reconhecimento e estima.