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Afetos são sintomas, não causas do cenário político e cultural

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Nos últimos anos, cidadãos das mais variadas partes do mundo passaram a conviver com o panorama cultural e político dominado por fake news, teorias conspiratórias e discursos de ódio. Movimentos e políticos da extrema direita passaram a utilizar as redes sociais e os aplicativos de mensagens instantâneas como fábricas de mentiras e ideias conspiratórias. O fluxo de mensagens com conteúdo ultranacionalista, racista, xenófobo e misógino aumentou simultaneamente com a ascensão de movimentos anti-vacinas, terraplanistas, negacionistas das mudanças climáticas, revisionistas do Holocausto e das ditaduras latino-americanas.

Para alguns autores, esse cenário é resultado do descaso pelos fatos e pela substituição da razão pela emoção. Partidos e movimentos populistas e fundamentalistas estariam induzindo os cidadãos a recorrerem ao medo e à raiva e a renunciarem ao debate sensato e ao auxílio de especialistas. Mas, será mesmo possível afirmar que o cenário atual é resultado da substituição da razão pelos afetos? Se a resposta for positiva, é possível argumentar que o caminho para superação do panorama atual é a mera substituição dos afetos pela razão?

Espinosa já demonstrava que os seres humanos são essencialmente relacionais, são seres que se constituem, transformam e se conservam a partir da relação com outros corpos, pela capacidade de afetar e ser afetado. Não há uma relação hierárquica entre corpo e mente. Por meio da mente é possível conhecer e compreender os afetos e afastar a ignorância. A reflexão é o meio pelo qual a mente interpreta os afetos e seu próprio corpo, separando as causas externas alienantes e descobrindo as causas reais. Não se trata de romper com os afetos, mas interpretá-los.

Nesse sentido, como poderíamos interpretar os afetos no cenário atual? Para Maria Rita Kehl, o ressentimento é um dos afetos centrais da política contemporânea, pois serve aos conflitos do homem contemporâneo e é sintoma da política moderna. De um lado, o ressentido mantém as exigências e características imaginárias do individualismo e do narcisismo, porque não questiona os limites do individualismo moderno, não coloca em risco a sua suposta superioridade moral e, ao mesmo tempo, não se responsabiliza pela sua situação. A culpa é sempre do outro. Ao mesmo tempo, o ressentimento é sintoma das democracias liberais, que antecipam simbolicamente as ideias de individualidade e de igualdade, mas não conseguem cumprí-las de fato. Para a autora, as democracias liberais pressupõem uma autonomia individual inalcançável, que mascara o caráter plural, corporal e relacional dos sujeitos — a existência do consciente e inconsciente, a relação entre corpo e razão e a dependência dos seres humanos com a comunidade e com outros sujeitos.

Na prática, o modelo de vida desejável no capitalismo é inalcançável para a maior parcela da população e os cidadãos encontram-se cada vez mais atomizados e impotentes. Em especial, na versão capitalista atual (globalizado, financeirizado e neoliberal), que beneficia um número mínimo de pessoas que estão no topo da pirâmide social; que reduz cada vez mais a mobilidade social e a capacidade do Estado em diminuir as desigualdades econômicas e sociais; e que criminaliza e enfraquece as organizações sociais tradicionais — sindicatos, partidos, organizações da sociedade civil, etc. Como demonstrado por Michael Sandel, nos últimos anos, o discurso meritocrático soa implausível até mesmo nos Estados Unidos, berço da retórica do Sonho Americano. O descompasso entre a realidade e a promessa de sucesso, fez com que grande parcela da população perdesse a confiança no Estado, nas instituições políticas e nas representações tradicionais.

A política do ressentimento, em Kehl — ou da humilhação, em Sandel -, é psicologicamente carregada. Quando se retira o acaso da vitória dos vencedores (nascimento, acesso à educação, saneamento básico, saúde, apoio familiar, valor de mercado em determinado tempo histórico, etc.), é recorrente a falta de autoconfiança e impotência entre os perdedores. Combina-se com essas sensações a valorização dos profissionais de alto escalão e a depreciação social do trabalho realizado pela maioria da população. Esse contexto é típico das sociedades capitalistas atuais, que fazem com que moral e psicologicamente o valor da pessoa seja medido pelo valor de mercado.

O ressentimento é ainda maior entre os cidadãos de classe média, que viram suas vantagens econômicas estagnadas ou em declínio nos últimos anos, mas preferem não enfrentar as causas reais e, sobretudo, preferem não colocar em jogo as suas pequenas conquistas sociais. Na maioria das vezes, optam por culpar os que compartilham das mesmas condições sociais ou minorias — étnicas, sexuais, religiosas — do que confrontar as estruturas da sociedade capitalista. Como apontado por Kehl, argumentos racistas, fascistas, xenofóbicos, discursos de ódio, de raiva e de intolerância podem funcionar como recompensas narcisistas para sujeitos sem estima social, atomizados, anônimos e estagnados economicamente, mas que não querem encarar as verdadeiras causas do seu descontentamento e, por isso, se deixam guiar por causas externas.

Alterar o panorama atual requer reconhecer que a racionalidade do ser humano está em interpretar os afetos e o próprio corpo e não em substituí-los. Os afetos não são irracionais em si. A ignorância está em agir por causas externas, desejando e se identificando com os valores hegemônicos. Compreender as contradições do modo tecnocrático de conceber o bem público e o modo meritocrático de definir ganhadores e perdedores no capitalismo atual é essencial para entender as afecções que circulam no panorama político e cultural. Porém, esse panorama não pode ser alterado por meio da substituição dos afetos pelo uso da razão. Primeiro, porque não é possível romper corpo e razão, afetos e ideias. Segundo, porque afetos são sintomas, não causas da realidade social.

Artigo publicado originalmente no Nexo Jornal (28 de agosto de 2021). Disponível em: https://www.nexojornal.com.br/ensaio/2021/Afetos-s%C3%A3o-sintomas-n%C3%A3o-causas-do-cen%C3%A1rio-pol%C3%ADtico-e-cultural.