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A Metamorfose e a ética meritocrática

Uma boa leitura ou releitura para o final de semana e para reflexão do que estamos vivendo é A Metamorfose, de Kafka. Em um dia qualquer, Gregor acorda pela manhã e descobre que virou um inseto gigante. Com equilíbrio precário e mal-estar, sua primeira preocupação foi o horário. Já eram seis e meia e o próximo trem para o trabalho passava às sete horas. Logo ele que nunca faltou ao trabalho, nunca esteve doente, foi sempre um trabalhador exemplar. Como seria responsável financeiramente pelos seus pais e irmã na nova condição? E o seu chefe, o que iria pensar? Gregor foi tomada pela culpabilização de algo que nem se quer tinha responsabilidade e, com passar do tempo, sua condição lhe trouxe a solidão dentro da sua própria família e sociedade.

Creio que seja a sensação de muitos brasileiros hoje. Como demonstrado por Michael Sandel, em A Tirania do Mérito, o crescimento do pensamento meritocrático ampliou a idéia da liberdade como exercício irrestrito do arbítrio e atribui a cada cidadão a responsabilidade total por seu destino, inclusive, sobre sua própria saúde. Esse pensamento corrói sensibilidades cívicas e democráticas e distorce a importância de políticas públicas de saúde e proteção social, como os auxílios emergenciais.

Quanto mais pensamos em nós como indivíduos que vencem somente pelo próprio esforço e como autossufientes, mais difícil é compreensão da dependência social e de sentimentos como gratidão e humildade. Como afirma Sandel, sem esses sentimentos é muito difícil se importar com bem comum. Acredito que é neste contexto social e ideológico, que faz da pandemia, que deveria ser uma situação de extrema solidariedade, se metamorfosear em solidão para maioria das pessoas.

Referências

Kafka, Franz. A metamorfose. 2 ed. Editora Itatiaia, 2018

Sandel, Michael J.. A tirania do mérito: O que aconteceu com o bem comum?. Civilização Brasileira. Edição do Kindle