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A Fita Branca: poder, família e comunidade

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A Fita Branca, de Michel Haneke, conta a história de uma pequena cidade rural alemã, no ano de 1913, antes da Primeira Guerra Mundial. O narrador é o único professor da cidade, que diz querer explicar o que aconteceu no país anos mais tarde. Desde início, o professor descreve uma série de situações estranhas e violentas que começaram a acontecer na região. Entretanto, o foco do filme não são as ações violentas em si, mas as relações sociais e subjetivas — individuais ou coletivas — que permitem essas ações. No filme, existem vários elementos que levam ao debate sobre as condições sociais, históricas e psíquicas do nazismo/fascismo. É claro que esses períodos não podem ser reduzidos ao campo psicológico, mas é um elemento importante para análise. Compreender os fatores subjetivos é importante para esclarecer como que pessoas comuns apoiaram e podem apoiar movimentos reacionários de massa ainda hoje. Destaco dois temas abordados no filme com repercussões atuais: a família e o estupro. Nas experiências históricas, as políticas e os movimentos reacionários de massa promoveram o medo espalhando o discurso sobre a ameaça dos papéis masculinos tradicionais. Criaram-se um pânico moral sobre o fim da família tradicional, ameaçada por aqueles que não respeitavam as tradições (mulheres, população LGBTQIA+ etc.). Para barrar a suposta ameaça da família tradicional, alimentou-se o discurso do homem como protetor e provedor da comunidade, que ressurge como família (conjunto homogêneo unificado pela raça, linguagem e crença religiosa). O estupro é usado de duas formas distintas e até mesmo contraditórias. De um lado, o estupro é usado como forma de dominação dos homens sobre as mulheres, como no caso do médico do filme, que abusa sexualmente da empregada e da própria filha. Por outro lado, em práticas fascistas, é comum usar do pânico moral sobre o perigo sexual para criar inimigos imaginários e fortalecer as práticas autoritárias. Para Hitler, por exemplo, os judeus eram responsáveis por promover a violência contra mulheres arianas puras como meio de destruir a “raça branca”. Percebe-se que a preocupação com estupro não está ligada a vida da pessoa em situação de violência, mas a “pureza” da comunidade. Há uma total desumanização das pessoas em situação de violência em prol da tradição e da perpetuação dos costumes. O que se quer proteger são as relações existentes e, não, as pessoas em situação de violência. O filme é repleto de outros assuntos interessantes para os dias atuais, como a contradição das relações autoritárias: as pessoas que são obrigadas a interiorizar hierarquias e dogmas sociais e religiosos, na prática, revelam-se ainda mais cruéis e perversas.