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O mito da não violência brasileira

Somos um país violento e que acoberta a violência para perpetuá-la. Como?

No artigo “O mito da não violência brasileira”, Chauí demonstra que reproduzimos diariamente imagens da violência que ocultam a violência real, por meio de cinco mecanismos:

Exclusão: Afirma-se que o Brasil é uma sociedade una, pacífica, que só existem cidadãos brasileiros (não existem grupos étnico-raciais múltiplos, classes, etc.). Se há violência, ela é praticada por não brasileiros (“eles”), mesmo que nascidos no Brasil (são os vândalos, os sem terra, os comunistas).

Distinção: A violência é vista sempre de forma acidental, ato único e individual, que perturba a essência pacífica.

Jurídico: A violência é reduzida a delinquência e a criminalidade, especialmente ao ataque à propriedade privada (furto, roubo) e a vida (latrocínio). Legitima-se na sociedade quem são os violentos (de modo geral as classes populares) e justifica as diversas ações policiais. Raramente a ação da polícia é considerada violenta (chacina, massacre). Na maioria das vezes, o assassinato policial é considerado normal, natural, justificável, necessário.

Sociológico: A violência é vista como algo temporário, causada por períodos de anomia e atribuída aos desadaptados.

Inversão do real: Dissimula comportamentos como se não fossem violentos. Machismo é proteção à fragilidade feminina; paternalismo branco é proteção a minoridade de grupos étnico-raciais; violência contra população LGBTQIA+ é proteção aos valores familiares; a ausência de direitos é sinal de progresso e civilização.

Assim, práticas diárias que reduzem qualquer sujeito à condição de coisa e que perpetuam relações de desigualdade (econômica, social, cultural) são naturalizadas como não violentas.

A partir daí, compartilhamos e comemoramos a morte com mais explicações violentas, porque só questionamos a violência na superfície: a cada dia, as lágrimas perdem mais sentido no Brasil.