Hora dos dispépticos

As dezenove horas e quatorze minutos apagam as luzes. Todos os dias, incluindo feriados e finais de semana. As dezenove horas e quinze minutos as crianças estão na rua. Os velhos estão nas calçadas. Entre dezembro e março, chove na hora dos dispépticos. Os desavisados correm para venda. Dois servidores da prefeitura desconectam os cabos, interrompem as redes e as transmissões de celular. Os rádios são desligados. As TVs apagadas. Com sorte, os vaga-lumes surgem. Os cachorros se acalmam. Nos caminhos: vozes. Como água que exige tomar a forma do corpo que habita, as montanhas se tornam a cidade. Várias e uma só. Não unidade-bloco, mas várias e uma só. A hora dos dispépticos é a hora de digerir. As histórias ganham fluidez e passam a correr nas artérias de pedra cobbled. Algumas se tornam substâncias assimiláveis, outras não. Nada é menos peculiar que o homem ocupado do que digerir. Não por acaso, acostumamo-nos a estranhar a nós mesmos. É preciso durante toda a vida aprender a digerir e, o que talvez cause maior espanto, é preciso durante toda a vida aprender a esquecer. Na casa 65, Senhor Francisco se recorda da última partida de futebol em Lobo Leite, quando sua mãe, ainda presente, preparava o jantar que ele não comeu. Na casa ao lado, a criança chora enquanto a mãe se recorda do filho morto, por acidente, na rua Pedro Mota. A jaqueta jeans da Side Play ainda não foi lavada. A criança ainda não sabe, mas é preciso se afogar na realidade para conseguir respirar um dia. Dona Ana canta como quem reza pela neta que nasceu no dia anterior, em Belo Horizonte. Parto normal. O pai esqueceu de carregar o celular no trabalho. Na verdade, não estava no trabalho. Quando chegou em casa, a filha já tinha sete horas e vinte minutos. Sagitariana. Marília lembrou do bilhete que escreveu antes de sair, mas nunca enviou. Carla saiu antes de Marília voltar. Bastava um ato, ou melhor, bastava a coragem para o ato. Carla sabia que o desejo de ser feliz deve ser acompanhado do desejo de ser, que não é outra coisa que agir. Mas não agiu. Na Avenida dos Inconfidentes, Calinhos se recorda que perdeu a entrevista de emprego porque passou a tarde bebendo com a mulher que casou dois anos depois. As grandes paixões descarregam de repente. No bar do Agostinho, toda sexta-feira servia torresmo de barriga a preço promocional, servido no prato fundo Duralex, e rodada dupla de Chopp. No verão, Carlinhos ia semanalmente às quatorze horas. No dia sete de fevereiro de mil novecentos e oitenta e cinco, Carlinhos teve que ir as treze, para chegar na entrevista as quinze. Poucos são aqueles que permanecem fiéis as suas paixões como Carlinhos. São os espíritos fortalecidos para aventura. Por isso, são sempre jovens, não dão descanso para alma. As dezenove horas e trinta minutos, Antônio da rua Vereador Peixoto recordou de Clarice, e das histórias que contava, todas as quintas, depois de trabalhar na casa do Prefeito. O ruído da mina subterrânea se fazia presente quando as palavras adentravam em sua alma, junto com café passado na hora e tomado na caneca vermelha de alumínio. Perfuração, corte, disparo, desmonte, ventilação, britagem, massa, balde, prima, filho, estudo, conta, audiência. Hoje, na hora dos dispépticos, o corpo de Clarice permanece no quarto. Antônio se questiona se ela ainda estava lá, já que a mente e o corpo são uma só e mesma coisa. Pedro se perguntava, enquanto procurava seu cachorro, se deveria ter pedido perdão ou perdoado seu pai. Pedro é dos espíritos miseráveis duplamente: primeiro pelo ato que não fez, depois pela tristeza de não ter feito. De tão miserável deixou a vida para procurar seu cachorro. Perdeu o apetite pela consciência de si. A mente deixou de governar, que é o mesmo que compreender, que não é nada menos do que a capacidade dos homens de perseverarem na existência, que é conservar-se firme. As vinte horas acendem as luzes. A cidade é feita de gente.
M.B.