Fresta

Estamos correndo. Em círculo. Em círculos. Não há saída. Há? Não sei se afastamos ou procuramos dirigir ao centro. Mas que centro? Existe algo que converge neste lugar, além da equidistância de todos os pontos? Círculo é algo que se tem centro. Este já se perdeu tem tempo. Ao menos o ser humano não é. Foram 200. Mil. 2. Milhões. Estamos mais próximo da natureza do que parece ser: sem intenções, sem piedade, sem clemência, sem justiça. Negamos nossos próprios instintos e o que restaram viraram espetáculos televisivos. Fizemos a vida ser tão pequena quanto a morte. Não há espaço para o silêncio, nem para o luto. Baldados, frustrados, ludibriados, corremos carregando certezas inúteis. Alguém disse um dia: quando foi que nos tornamos os puritanos fanáticos da consciência, que preferem morrer com a certeza dos dogmas do quê a viver com a incerteza das possibilidades? Asfixiamos com a realidade. Quão modernos deixaram de ser? Ora, ressuscitamos a metafísica. Enxergamos e coabitamos como seres prontos e acabados. Deixamos de lado o sensível: quem somos e o que vamos ser desconectaram da vida. Enclausuramos na ditadura que criamos: ditadura da constância. Não se passaram duzentos anos da descoberta do inconsciente e já parece em desuso. Suprimimos o direito da inconstância, aprisionamos em estruturas pré-definidas. Direito ou essência? Nós nos tornamos covardes supra sensíveis. Que ironia sem graça! Mergulhados em vozes que bradam, nós nos asfixiamos com verdades em nossos pulmões. Estávamos sem ar, antes da falta de oxigênio. Há festas nos escombros dos mortos. Há música no luto alheio. Há filhos sem mães. Há mães sem filhos. Continuamos correndo, correndo, correndo. Não há nada tão contemporâneo que o desprezo pela vida, acompanhado pelo cultivo do corpo. Esperançosos, procuramos a rua que deixamos a humanidade morrer. Há ruas vazias e festas lotadas. Deve existir algo a ser preservado nesta cidade. Estamos desgastados. Cronicamente desgastados. Não vale a pena descansar. Sabemos que sabemos muito. Inclusive, sabemos que não sabemos nada. Sozinhos na multidão, devemos carregar a responsabilidade de ser ar em um mundo asfixiado? Corremos por tanto tempo… Sabemos que não há saída dentro desta estrutura. Companheiros, continuaremos correndo? Vejam bem: flores não nascem do asfalto, brotam em rachaduras.
M.B.