Em 2021, permita ser infectado.

Em 2021, permita ser infectado
Saramago denominou agnosia a incapacidade de reconhecer o que se vê. Chamarei de imunidade a inabilidade de ser infectado por pessoas. No dicionário, imunidade é a propriedade de um organismo vivo de ficar a salvo de determinada doença. É a capacidade do organismo de defender de invasores. Imunizar é torna imune. Imunizar-se é torna-se imune a invasores. Em 2020, as corridas automobilísticas cederam lugar as corridas por imunização. Países, pesquisadores, universidades, políticos, indústrias farmacêuticas e empresas travaram corridas para imunizar o mundo contra a Covid-19. Corridas, no plural, já que os fins sempre foram diversos. Alguns corriam atrás da imunização. Outros corriam para serem os primeiros a licenciar uma vacina. Não precisamos descrever os fins que cada corredor queria atingir. Nós sabemos. Entretanto, todos queriam descobrir a fórmula para tornar imune a população contra o invasor. Paralelamente as corridas pela imunização, medidas restritivas nos colocaram em isolamento físico. O isolamento tornou nosso maior aliado na defesa da vida e da saúde. Ao redor do globo, encontros foram interditados. No Brasil, a interdição se deu pouco tempo depois do carnaval. Logo do carnaval, a festa que priva de autoridade os gêneros, classes e hierarquias sociais e que vira em sentido o imaginário social. Quase tudo é permitido. Quase tudo é possível. Nas ruas, os muros dos condomínios parecem ausentar. Todos se encostam, se aproximam uns dos outros. As hipocrisias são suspensas pela anestesia do encontro universal. Simbolicamente, o sagrado e o profano são destituídos, as fronteiras da beleza são refeitas. A realidade se confunde com as fantasias. A propriedade é suspensa pelas ruas ocupadas. Os banheiros dos comércios se tornam públicos. Os copos e corpos são compartilhados. As ordens são quase todas suspensas. Simbolicamente o carnaval é a anestesia da permissividade e do encontro. Estávamos sentindo os efeitos da anestesia carnavalesca quando a pandemia impôs as ordens de restrição de locomoção e encontro. Quase tudo deixou de ser permitido. Quase tudo deixou de ser possível. Os muros dos condomínios foram suspensos. Todos deixaram de se encontrar, de se aproximar. As hipocrisias voltaram as manchetes dos jornais e as redes sociais. O bem e o mal se polarizaram. As ruas esvaziaram. Os comércios fecharam. Os copos e corpos deixaram de ser compartilhados. E as ordens foram impostas. As desigualdades se exacerbaram. Simbolicamente a pandemia é a imunização do encontro. Mas carnaval é anestesia. Anestesia porque alivia o paradoxo de uma realidade que vem antes da pandemia: o paradoxo de uma sociedade mundialmente conectada e socialmente isolada. A pandemia tornou visível o que o carnaval ameniza. Esconde a dor. Ao longo dos últimos anos, as ferramentas de comunicação de massa cresceram paralelamente com a diminuição da faculdade das pessoas de se afetarem umas com as outras. Ser afetado depende necessariamente da convivência comum, da construção intersubjetiva fruto da coabitação, da coexistência. As grandes cidades, os condomínios fechados, as escolas privadas, o ataque aos sindicatos, partidos, associações, a tecnocracia, as especializações, o crescente individualismo e a diminuição dos espaços públicos afastaram cada vez mais os encontros e a perda da construção comum. Ao lado da privação da coexistência, as redes sociais e os aplicativos digitais nos permitiram a troca de mensagens e informações em quantidade nunca antes possível. Porém, alimentar de mensagens e informações diversas não é o mesmo que construir linguagens e valores comuns. Absorvemos mensagens e informações como consumimos bens e serviços. Utilizamos aquilo que alimenta o que programamos como avatar ideal e descartamos aquilo que perturba, que desestabiliza o planejado. Cada vez mais não nos permitimos surpreender e sermos surpreendidos. Vivemos a era do individualismo exacerbado. Nossas relações são medidas pelas potencialidades ou não que elas nos trazem. Ao mesmo tempo, a era do mérito culpa o outro por interromper nossa ascensão. O mesmo se dá nos relacionamentos pessoais. Colocamos a culpa do fracasso sempre no outro. Ou nos aplicativos. Não por acaso o ressentimento é um dos afetos centrais da modernidade. O ressentimento é individualista porque aquele que é ressentido acredita que pode ser e crescer individualmente. Que seu desenvolvimento é fruto do seu esforço individual e indivisível. Se eu não consegui crescer, ou se meus relacionamentos fracassaram, não foram pelas minhas virtudes, pela minha pureza. O individualismo por trás do ressentimento bloqueia a capacidade de conhecermos uns aos outros. Conhecer o outro é a capacidade de se tornar o estranho. Ou o estrangeiro, como disse Toni Morrison. Conhecer o outro é destituir do seu imaginário ideal. É perder o seu controle e seu status idealizado. Não são as ferramentas virtuais que impedem o encontro e a destituição de si mesmo. É a incapacidade de sentir a doçura de um encontro. Essa incapacidade foi construída com doses diárias de individualismo (e ressentimento), que nos impede de infectar e ser infectado pela existência alheia. Ser infectado por outra existência é coabitar experiência para se construir um “nós”. Não é soma. É destituir dos medos, das hierarquias, das premissas sociais para surpreender com a novidade que vem do encontro. E do que se cria a partir dele. Não são as redes sociais, por si só, que alimenta a dependência, o isolamento e a perda progressiva de contato com outras pessoas. Estamos programados para sermos imunizados a conhecer outras pessoas. Conhecer é incorporar à memória alguém. Incorporar seus gestos, expressões de rostos, linguagem corpórea. É se destituir e se constituir depois do frio na barriga, da transpiração, do silêncio e do diálogo. É rever seus gostos, os filmes que viu e os caminhos que percorreu. É relembrar dos seus gostos para perdê-los logo em seguida. Pode-se dizer que é uma abertura ao inesperado. A conexão virtual não é capaz de construir nós. Não é capaz de unir uns aos outros. Ou melhor, não é suficiente, mas pode ser um começo. Para existir um nós, é preciso vontade, ou capacidade, de se destituir de nós mesmos. De deixar para trás certezas e se abrir ao inesperado. Essa é a doçura do encontro. Para 2021, lutemos pela imunidade ao vírus, mas deixemos ser infectados por pessoas. Há algo simbólico do carnaval que deveríamos levar para vida: a permissividade de ser estrangeiro, a faculdade de habitar espaços inabitados e de inverter ordens estabelecidas. A doçura do encontro está em viver o inesperado. Quando isso acontece é difícil respirar. Mas só perde a respiração quem não está anestesiado.
M.B.